Maurício Arraes
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Maurício Arraes

Junho, 1956
Vejo aqui um pequeno texto sobre Maurício Arraes escrito por mim, José Cláudio, em 1981. Conhecera-o em 1978 ele regressando da França com vinte e dois anos e se, de adulto, tivesse pouco tempo, na pintura alcançara amadurecimento completo como se nascido pronto e sabendo desde sempre onde queria chegar; e, a essa altura podemos confirmar, tinta anos depois, sem dúvidas nem hiatos nem reticências nem titubeios. O que eu disse naquela época se mantém, o que é novidade, pois duvido que uma coisa que eu tivesse dito há tanto tempo pudesse permanecer, até sobre mim mesmo; e outra novidade é que ele nunca se repetiu, como se , a cada quadro, descobrisse o Brasil de novo, nessa capacidade inesgotável de nos ver. Veja trechos do que escrevi em 1981. “De fato quando me apareceu um dia aqui Maurício mostrando-me alguns trabalhos senti-me jogado no maio da ação como se ele propusesse uma opção para a minha pintura numa área em eu até certo ponto me achava isolado, que era a da investigação do real, e vi que diante dele, da crueza de suas imagens, o meu olho ainda estava anuviado por evocações idílicas, sonhos de paraíso perdido e imaginário, eu sendo levado a eliminar da realidade o que nela me parecia acréscimo ou interferências desagradáveis; dando, por exemplo, à figura humana, um destaque que não existe no barbarismo e irracionalidade da vida de hoje seja na rua ou dentro das casas, no bar ou no campo, em que o ser humano escorraçado não tem moral, material, ou visualmente, a importância de um sinal de tráfego ou mesmo de uma caixa qualquer de lixo ou telefone, e até um novo tipo de aro de pneu ou calota merece mais espaço no mundo e nas mentes do que a criatura humana.” E: “O pincel que pinta uma cara é o mesmo que pinta o vazio; e as cores não guardam nenhum sentido de hierarquia, seja uma fruta ou uma lata, um beiço de gente ou um meio- fio esteja no primeiro ou último plano, perto ou longe”. Vale também citar: “Às vezes, para dar idéia de volume, apenas espicha a tinta, que se torna mais rala, mas isso também acontece sem tal necessidade; não lhe importando, ao encher uma área, que ela seja plana ou tenha relevo, possivelmente tudo dependendo de uma maior ou menor quantidade de tinta daquela cor à mão na paleta, com uma total indiferença mesmo por esse cuidado elementar de qualquer um dos mortais que é a combinação de cores. Para Maurício as cores são porque são, são- no em si, sem atender a nenhuma lógica combinatória ou composicional; tendo elas com a realidade somente encontramos na superfície do planeta e não em alguns recantos prediletos com que os pintores eventualmente se encantam resolvendo perpetuá-los na lembrança que é o quadro. Não há para Maurício tais recantos prediletos. Para ele feio e bonito é igual. As cores são taxativas sem titubeios nem meio-termos. Tem-se a impressão de que, terminado o quadro, jamais voltará este à sua mente para uma reavaliação ou o que seja cena que se vê e esquece”. Fernando Monteiro diz: “Ainda não vi nenhum crítico de arte fazer a aproximação que me parece a mais iluminadora, em se tratando de Maurício Arraes: a da sua pintura vivaz, atenta e participativa, com o universo de Bajado, esse mestre primitivo que, em minha opinião, divide o panteão naif brasileiro com José Antônio da Silva (a que Maurício também poderia ser aproximado, honrosamente, mesmo como pintor não primitivo, no rigor da classificação)”. Pois não é, ilustre amigo Fernando, que eu já tinha tocado no assunto, mesmo sem ser crítico de arte? “Porque no fundo ele é um primitivo do tipo daquele bárbaro de A Laranja Mecânica que curtia Beethoven.” E: “Ele morde a realidade como um cão danado que descobriu que a vida – único bem a que fomos reduzidos – não vale um tostão. É o pintor da fugacidade, do reles, do vulgar e feio, do prosaico que vai eliminando o homem a começar pelo que está em redor, de modo a que não possamos mais nos reconhecer, não por drama subjetivo, mas pela corrosão vinda de fora arrancando-nos a pele e com ela a alma aos farrapos”. De lá, de 1981, para cá, 2008, muita coisa andei escrevendo, que sou dado à prática, meu violino de Ingres, pensando em mim, pensando no Brasil, aquele “quem somos” de Gauguin que nos ocorro às vezes, e um dos artistas a cuja obra recorro me dando base, me dando tranqüilidade para trabalhar, olhando sua grafia, entrando na temática dos seus quadros, seus chãos de asfalto ou terra seca e poeira, seus ambientes de periferia, seus brasis, é Maurício Arraes. Há pouco dizia: “Pintem, ‘fotografem’ o Brasil. Procurem-no com todos os sentidos, atento, como um estrangeiro recém-chegado aqui” (“Aos que não entraram nos ‘enta’”, suplemento “Pernambuco”, fevereiro/2008). Pois bem: essa apresentação de 1981, de que reproduzo alguns parágrafos, tem o título de “O estritamente real, fotografável”. E isso a gente pode dizer sem medo, da pintura de Maurício Arraes porque jamais poderá ser confundida com fotografia embora seja tão confiável como um flagrante sem retoque, Roberto Pontual diz: “Entende-se que as pinturas de Maurício Arraes queiram colocar-se nesse ponto intermediário entre deslumbramento e indagação”. A que acrescento, sem muita convicção, indignação.

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